Colônia japonesa cria ‘florestas de comida’ no Pará e vira referência contra desmatamento

Escrito por Felipe Costa

Equipe de autores da ArqBahia.

Esses japoneses não só vieram pra Amazônia, como criaram um sistema de plantio que recupera solos esgotados e, ao mesmo tempo, gera alimentos o ano todo… uma técnica capaz de transformar grandes áreas desmatadas em exuberantes agroflorestas – e que fez de Tomé-Açu um exemplo pra quem busca alternativas à destruição da Amazônia.

Raízes na Amazônia: História da Imigração Japonesa

Nos anos 1920, quando as famílias japonesas começaram a chegar aqui, a ideia era que ficassem alguns anos, juntassem um dinheiro e depois voltassem para o Japão, só que isso não aconteceu para uma boa parte daquelas pessoas. Elas ficaram aqui até o fim e morreram no Pará. Essa é a história de uma comunidade que fincou raízes nesse pedaço da Amazônia.

“Japão é um país pequeno em relação ao Brasil. Não tínhamos perspectiva de adquirir coisa futura. Meus pais resolveram vir para o Brasil porque tinha terra muito grande.” Aos 96 anos de idade, Hajime Yamada é a última pessoa viva a integrar a primeira leva de japoneses que aportou em Tomé-Açu, em 1929.

Desafios e Superação

A chegada dos japoneses não foi isenta de desafios. Morando em condições precárias, enfrentaram não apenas as dificuldades naturais da região, como a malária, mas também as consequências da Segunda Guerra Mundial. Durante esse período, foram considerados inimigos do estado brasileiro, enfrentando restrições e vigilância.

O fim da guerra trouxe um alívio misturado com a dor da destruição de Hiroshima, cidade natal de Hajime Yamada. “Eu sou de Hiroshima. Bomba atômica deixou muita gente doido. Quebrou tudo. Quando a bomba explodiu, queimava a pele da gente. Acho que se eu tivesse ficado lá, teria morrido também mesmo. Aí dei graças a Deus por ter vindo para cá pro Brasil.”

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Prosperidade, Crise e Renascimento

Após a Segunda Guerra Mundial, a comunidade japonesa de Tomé-Açu prosperou, construindo edifícios e impulsionando o desenvolvimento local. No entanto, a década de 70 trouxe a fusariose, uma praga que dizimou as plantações de pimenta-do-reino, encerrando um ciclo de prosperidade.

O budismo, central na cultura japonesa, também perdeu força, levando muitos a migrar para o Japão. A busca por alternativas econômicas levou à adoção de práticas agrícolas inovadoras, marcando o renascimento da comunidade.

Agroflorestas e Sustentabilidade

A revolução nas fazendas japonesas trouxe um novo ciclo de bonança para Tomé-Açu e contribuiu para a recuperação ambiental da região. Técnicas milenares japonesas, aliadas a práticas sustentáveis aprendidas com os ribeirinhos, deram origem a um sistema de plantio que transformou áreas desmatadas em agroflorestas exuberantes.

Nesse método agrícola, não há lugar para agrotóxicos ou fertilizantes químicos. A diversidade de espécies é valorizada, e insetos são considerados aliados no equilíbrio do ecossistema. Michinori Konagano, nascido no Japão e residente no Brasil desde os dois anos, é um exemplo dessa nova abordagem. Ele compartilha seu conhecimento e busca inspirar outros agricultores a adotarem práticas sustentáveis.

“Eu vejo assim essa imensidão de gente necessitando, né? Precisamos alimentar essa população. Então por que não passar esse conhecimento para todo mundo? Independente de colônia japonesa. Esse é o meu pensamento particular.”

Um Futuro Sustentável

Mesmo com a incerteza sobre as futuras gerações manterem a tradição agrícola, a comunidade de Tomé-Açu está determinada a preservar e revitalizar a Amazônia. A transformação de áreas desmatadas em florestas de alimentos é um testemunho do poder de adaptação e resiliência da comunidade japonesa nesse pedaço único da Amazônia.

Fonte

Esse texto foi feito com base na reportagem da BBC News Brasil abaixo.

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